Aquele jogo de Viena

Vinte e oito anos não passam depressa, por isso posso dizer que foi já há muito tempo aquele jogo de Viena. Para um miúdo de oito anos, a capital austríaca era logo ali, na televisão, onde o futebol só aparecia em momentos de enorme solenidade – por isso, semanas antes, tinha visto com respeito a vitória do Porto em Kiev, por isso com igual seriedade ficaria encantado pelo Desportivo de Chaves – Honved, uns meses depois.

Lá em casa ninguém era do FCP, ainda que o meu irmão fosse do Gomes, porque tínhamos conhecido o bibota na Serra da Vila, mais o seu carrão vermelho, quando ele foi almoçar ao restaurante do “Zé Inácio” no dia em que os Dragões jogaram com o Torreense para a Taça de Portugal. Não havia Gomes, mas havia festa. Os dois espalhados pela sala como que hipnotizados perante o Futre, o Madjer ou o Juary – e talvez fosse mesmo o brasileiro, porque suplente, porque improvável, aquele que eu mais admirava – frente a um Bayern onde todos eram mais fortes, ainda que com uns pouco impressionantes calções azul-bebé.

Não havia nada mais do que um jogo, uns heróis, um relvado, na televisão. Não importavam as discussões, as guerras, as rivalidades, o que fosse. Depois foram os golos e os dois a saltar em cima do sofá, o FC Porto era campeão europeu, que coisa tão nova e maravilhosa para um miúdo de oito anos. Foi por dias assim que, pelo menos no futebol, nunca nos sentimos pequenos perante a Europa. Começou há vinte e oito anos, naquele jogo de Viena.

Aquele jogo de Viena

Ser Eduardo Galeano

Não precisei de conhecer o Eduardo Galeano para me apaixonar pelo futebol. Aliás, nem precisei de aprender a ler. O futebol esteve lá sempre, antes de tudo o resto. Em parte, até cresci para estar em desacordo com a frase mais citada do autor uruguaio, aquela em que ele diz que “en su vida, un hombre puede cambiar de mujer, de partido político o de religión, pero no puede cambiar de equipo de fútbol”. A verdade é que os anos me vão demonstrando que acabamos por encontrar a nossa mulher, a nossa visão política e religiosa do mundo enquanto, nesse processo, para quem sente tão profundamente o futebol, a equipa passa a ser apenas um pequeno ponto de passagem na procura do jogo que nos faz reviver a emoção que sentimos quando éramos apenas crianças.

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Ser Eduardo Galeano

Três jogos este fim-de-semana

Este fim-de-semana poderão acompanhar três jogos da Major League Soccer na Eurosport 2 com comentários de Luís Cristóvão.

Sábado, às 21 horas, seguimos o Philadelphia Union – New York City, com o Gonçalo Moreira na narração.

Domingo, jornada dupla, a partir das 22 horas, com o Portland Timbers – Orlando City e o Los Angeles Galaxy – Seattle Sounders e a narração de Nuno Santos.

Oportunidade para ver algumas das principais estrelas da MLS, como David Villa, Kaká, Robbie Keane e Obafemi Martins, para além dos portugueses Steven Vitória e Rafael Ramos.

Três jogos este fim-de-semana

Colorado Rapids recebe o New York City

Este sábado, às 20 horas, vou estar na Eurosport 2 a comentar o encontro entre os Colorado Rapids e o New York City FC, a contar para a terceira jornada da MLS.

Em estúdio, terei a companhia do Nuno Santos.

Colorado Rapids recebe o New York City

MLS na Eurosport

Esta sexta-feira, a partir das 23 horas, vou estar na Eurosport 2 a comentar o Houston Dynamo – Orlando City com o Nuno Santos e o Olivier Bonamici.

MLS na Eurosport

O Onze do Europeu Sub-21

Terminado o Europeu Sub-21, com inequívoca vitória para a Espanha, elegemos o nosso onze da competição.

Guarda-redes
De Gea (Espanha)
Chegou até à final sem sofrer golos. Ter uma das melhores equipas à sua frente ajudou, mas é uma das figuras do torneio pela tranquilidade oferecida à sua equipa.

Defesa
Montoya (Espanha), Caldirola (Itália), Bartra (Espanha), A. Moreno (Espanha)
Inevitável domínio espanhol. Na direita, Montoya deu claros sinais de merecer mais confiança no Barcelona, enquanto, do lado esquerdo, Alberto Moreno comprovou aquilo que já começou a demonstrar no Sevilha. Dois laterais muito seguros e com forte capacidade ofensiva. Na linha central, escolhemos os dois jogadores que demonstraram maior experiência e capacidade de controlo de situações. O espanhol Iñigo Martínez e o noruegês Semb Berge merecem menções honrosas.

Meio-campo
Illarramendi (Espanha), Thiago Alcântara (Espanha), van Ginkel (Holanda)
O basco comprovou na La Rojita aquilo que deixara já claro na Real Sociedad. É um jogador pronto para assumir o equilíbrio da sua equipa, deixando sobrar muito pouco para surpreender na sua defesa. Ganha, na corrida pela posição mais fixa, sobre o italiano Verratti. Van Ginkel chega a este onze como representante de uma seleção holandesa que esteve muito forte nos dois primeiros encontros – e van Ginkel foi peça chave na ligação dos setores -, mas perdeu algum gás na segunda metade da sua participação. Sobrepôs-se, ainda assim, a Koke, que teve um papel invisível, mas fundamental, na vitória espanhola. A posição mais ofensiva do meio-campo fica para Thiago Alcântara. Andou como que apagado pelo brilho dos seus colegas durante boa parte do torneio, mas na final, não deixou a sua participação neste torneio passar despercebida, fazendo uma exibição que, por si só, mereceu mais um título europeu.

Ataque
Isco (Espanha), Morata (Espanha), Insigne (Itália)
Não existem muitas palavras para definir Isco. O melhor jogador deste torneio poderia, muito bem, estar no onze da seleção principal espanhola na Taça das Confederações. Tendo em conta o valor de La Roja, isso é já dizer muito. Neste nosso onze, surgiria mais lançado pela direita, porque o flanco esquerdo vai para o baixinho Insigne, um fabuloso extremo esquerdo que não desiste de nenhuma bola e mantém a defensiva contrária sempre de prevenção. Na frente, Morata, com quatro golos, foi o melhor marcador da competição, mas demonstrou também ser o ponta-de-lança mais perigoso pelo torneio, podendo deixar marca de cabeça ou em progressão. Um suplente de luxo para esta equipa seria o norueguês Pedersen, uma excelente surpresa pela mobilidade e oportunidade demonstradas.

O Onze do Europeu Sub-21

Diz-me em que baseias a tua confiança…

… e dir-te-ei o que penso do teu treinador. Um exercício entre o Cabo Verde de Lúcio Antunes e a Angola de Gustavo Ferrín.

É pouco provável que venhamos a encontrar uma seleção lusófona no playoff de acesso ao Mundial 2014 da Confederação Africana. Cabo Verde começou esta qualificação da pior forma possível, perdendo na Serra Leoa e, em casa, com a Tunísia, ainda antes do brilharete na CAN 2013, Angola não consegue encontrar forma de vencer uma partida, contando com quatro empates em outros tantos jogos disputados. No último fim-de-semana, porém, podemos assistir a exibições confiantes de ambos os conjuntos, com os Tubarões Azuis a vencer a Guiné-Equatorial por 2-1 e os Palancas Negras a empatar em casa com o Senegal a uma bola (o que não seria mau, se conseguissem bater outros adversários potencialmente mais frágeis).

Lúcio Antunes continua a gerir da melhor forma possível o talento que tem à sua disposição. Entre a equipa conhecida na CAN 2013 e a apresentada no encontro desta semana, salta à vista a transformação do corredor central da defesa. Sem Nando, que abandonou o futebol internacional, e Fernando Varela, indisponível para esta partida, o técnico cabo-verdiano chamou à titularidade duas caras conhecidas da Segunda Liga portuguesa. Kay, do Belenenses, e Gegé, do Marítimo B. A dupla não apresentou dificuldades para assumir o controlo defensivo de uma equipa em que tudo parece funcionar sem surpresas para os jogadores. O posicionamento de cada atleta está pensado e estruturado em função das necessidades da equipa, sendo por isso que, de cada vez que os Tubarões Azuis entram em campo, se sente de imediato que aquele conjunto de onze atletas tem noção do que precisa de fazer para vencer. Arriscaria a dizer que a CAN fortaleceu, enormemente, a posição de Lúcio Antunes no seio do seu grupo. Sendo um técnico que compreendeu como fazer parte do grupo que liderava, conduzindo-o ao sucesso do apuramento para a maior competição africana, acabou aprovado pela forma como retirou dos seus jogadores capacidades para se enfrentarem num grande palco. É por isso que, seja no Estádio da Várzea, na Praia, ou no Estádio Nélson Mandela, em Porth Elizabeth, os Tubarões mostram, calmamente, os seus dentes afiados. Uma pena o apuramento para o Mundial não ter começado doze meses mais tarde.

Durante a primeira parte do Angola – Senegal, um jornalista africano expressava no Twitter a sua admiração pelas transformações visíveis na equipa dos Palancas Negras, se comparadas com a mesma seleção que marcou presença na CAN 2013. Mas se o treinador e a maioria dos jogadores são os mesmos, o que realmente mudou na estrutura angolana? O processo de jogo dos Palancas Negras é um bom caso de estudo sobre o que fazer e não fazer no futebol. Uma seleção que vive, há anos, com um horizonte de objetivos demasiado elevados para a sua realidade, sofre, obviamente, uma constante pressão para se superar. Ora, pelo que podemos entender dos resultados, isso não tem sido positivo. Talvez a equipa angolana tivesse precisado do insucesso da CAN 2013 – onde tudo o que podia correr mal, correu pior – para que o seu técnico ganhasse força no seio da equipa (parece contraditório, mas não é). Gustavo Ferrín chegou em julho de 2012 ao comando dos Palancas e teve pouquíssimo tempo para apreender o que se vivia no Girabola. As suas escolhas iniciais iam transmitindo isso mesmo, levando a que, apesar de algumas boas notas deixadas durante a preparação, na CAN 2013, Angola apresentasse uma já habitual descoordenação defensiva – o que não é, de todo, um sinal habitual do que vamos vendo no seu campeonato nacional. Precisou o técnico de tempo para compreender as melhores opções para o seu onze – longe de outras influências que foram sendo notórias nos Palancas Negras dos últimos anos – , e com poucas alterações nos jogadores utilizados, a equipa ganhou outra face. Mesmo que isso não chegue para que Angola chegue a um Mundial – sendo realista, Angola não tem valor, ainda, para estar entre as dez melhores seleções do continente -, sente-se que há uma semente prestes a nascer no grupo dos Palancas. Mesmo que no Estádio 28 de Setembro, em Conacri, ou no Estádio 11 de Novembro, em Luanda, a equipa que entra em campo ainda tenha alguma desconfiança no olhar.

Publicado no Futebol Mundial.

Diz-me em que baseias a tua confiança…